Point Of Care para monitorar edema pulmonar cardiogênico

Vamos falar sobre o monitoramento do edema pulmonar em pacientes cardiopatas:


A insuficiência cardíaca congestiva esquerda (ICCE) em cães, geralmente, se manifesta como edema pulmonar devido ao aumento da pressão hidrostática no átrio esquerdo (AE) e na vasculatura pulmonar.



Comumente, as radiografias torácicas são empregadas para a avaliação pulmonar em cães para identificar edema pulmonar em pacientes com sinais clínicos e achados de exame físico que sejam sugestivos de insuficiência cardíaca congestiva. Embora seja rotineiramente utilizada, a radiografia torácica tem desvantagens para detecção e monitoramento da ICCE. Primeiramente, a radiografia torácica requer posicionamento em decúbito dorsal/ lateral e remoção do oxigênio, o que pode exacerbar a hipoxemia e dificuldade respiratória.

O uso da ultrassonografia para esse exame é uma vantagem devido ao posicionamento do cão, que não precisa ficar em decúbito dorsal/lateral e não precisa remover o oxigênio

A ultrassonografia pulmonar “point-of-care” é uma ferramenta eficaz para o diagnóstico de ICCE em humanos, cães e gatos e pode diferenciar com alta sensibilidade e especificidade um edema pulmonar cardiogênico e causas não cardíacas que causem dispneia ou tosse. O uso do ultrassom pulmonar “point-of-care” para detectar ICCE envolve identificação de artefatos de ultrassom denominados como linhas B. As linhas B são artefatos hiperecogênicos verticais de base estreita e discreta que se estendem da superfície do pulmão ao campo distal de maneira contínua e que se movem de forma sincronizada com a respiração (ver figura abaixo).

Esquema mostrando as linhas B (3 faixas brancas no sentido vertical) em região torácica. As faixas pretas (anecogênicas) são decorrentes da sombra causada pelas vertebras.

As linhas B se formam devido à alta impedância do som na interface líquido/ar, que ocorre quando o edema no interstício e no alvéolo está adjacente ao ar dentro do pulmão. Podem aparecer em 31% dos cães com pulmões radiograficamente normais e em numerosas quantidades estão relatadas em casos de edema cardiogênico, pneumonia e contusão pulmonar em cães e gatos (Murphy et al. 2021).

A ultrassonografia pulmonar “point-of-care” tem utilidade no monitoramento seriado em casos de edema pulmonar em humanos com ICCE, sendo possível, portanto observar uma diminuição das linhas B ao longo de várias horas e resolvendo dentro de dias de tratamento com diurético.

Portanto, é importante considerarmos o uso da ultrassonografia pulmonar “point-of-care” para monitorar a resolução do edema pulmonar em cães após o diagnóstico de ICCE.


Murphy et al. (2021) realizaram um estudo com pacientes tiveram o diagnóstico de ICCE (episódio inicial e subsequente recorrência) foi baseado em uma combinação de:

- Sinais clínicos e achados de exame físico consistentes com ICCE (aumento da frequência respiratória ou esforço, com ou sem tosse ou intolerância ao exercício );

- Ecocardiograma realizado por um cardiologista credenciado ou residente em cardiologia confirmando a presença de valvopatia mitral mixomatosa grave (VMMG) ou cardiomiopatia dilatada (CMD);

- Radiografia torácica demonstrando a presença de um padrão pulmonar intersticial ou alveolar consistente com edema pulmonar cardiogênico; e

- Uma resposta clínica positiva (frequência respiratória diminuída) com uso de furosemida.

Os autores verificaram que houve redução na quantidade de linhas B desde o diagnóstico hospitalar de ICCE até a alta hospitalar do paciente. Essa melhora foi verificada desde a primeira verificação.


A redução mais significativa das linhas B ocorreu entre os primeiros pacientes com alta hospitalar, quando foi utilizada furosemida injetável no tratamento médico agressivo para controle de ICCE. Essa melhora do ultrassom pulmonar foi semelhante à observada em um estudo de insuficiência cardíaca descompensada aguda em 70 pessoas, que demonstrou resolução das linhas B após 4,2 dias de tratamento médico para ICCE. Os índices do ultrassom pulmonar tiveram um bom desempenho para o propósito de monitorar a resolução do edema.

O número médio de linhas B e locais fortemente positivos (3 ou mais linhas b confluentes entre si) por cão na alta hospitalar (20 horas depois do atendimento), embora tenha melhorado significativamente em comparação com o dia do diagnóstico, permaneceu mais alto do que o relatado para cães com pulmões radiograficamente normais. Notou-se que apesar de eupnéicos, os cães do estudo provavelmente mantiveram algum grau de edema pulmonar residual no momento da alta hospitalar. No momento do primeiro exame de verificação (média de 12 dias depois), os resultados do ultrassom pulmonar “point-of-care” foram indistinguíveis dos cães normais (média de 0 linhas B). Os índices de ultrassom pulmonar aumentaram durante as recidivas de ICCE em exames de verificação subsequentes. No geral, os resultados do estudo sugerem que os artefatos da linha B melhoram rapidamente e acompanham a radiografia torácica na melhora clínica avaliada pelo veterinário (ou recidiva) do edema pulmonar em cães com ICCE.


Esses resultados sugerem que a ultrassonografia pulmonar “point-of-care” pode ser uma ferramenta eficaz e prática para monitorar ICCE, associada à diminuição da exposição à radiação, conforto durante o exame e custo potencialmente mais baixo em comparação com radiografia torácica seriada.

A distribuição espacial do edema pulmonar no diagnóstico, diferiu entre a ultrassonografia pulmonar “point-of-care” e a radiografia torácica. A ultrassonografia pulmonar tipicamente detectou edema difuso e simétrico com linhas B em todos os locais, enquanto o edema na radiografia torácica foi mais grave nos pulmões direitos.

Quanto ao monitoramento do escore de edema, mostrou que tanto a radiografia torácica quanto a ultrassonografia pulmonar melhoraram desde o diagnóstico inicial de ICCE até a alta hospitalar no estudo. Uma pequena discrepância pode ser por conta das diferenças entre a capacidade em detectar alterações. O ultrassom detecta melhor os edemas periféricos enquanto a radiografia, os edemas localizados centralmente no lobo pulmonar.

Comparando as duas técnicas, o edema cranial detectado pela radiografia torácica reduziu na primeira consulta para pacientes que receberam alta em apenas 29% dos casos, enquanto o edema nos quadrantes caudais reduziu em um grau semelhante ao edema detectado por ultrassom pulmonar (75%). Essa discrepância pode sugerir que o ultrassom torácico tem maior acurácia do que a radiografia torácica na detecção da presença ou ausência de edema nos quadrantes cranial e médio do pulmão, em comparação com os quadrantes peri-hilar e caudal, onde ambas as modalidades identificaram edema de forma semelhante com padrões de resolução semelhantes.

No estudo em questão, o ultrassom pulmonar mostrou utilidade potencial para monitorar a resolução e recorrência de ICCE em cães, acompanhando bem a frequência respiratória e pontuações de edema radiográfico. A ultrassonografia pulmonar “point-of-care” pode ser considerada uma alternativa prática a radiografia torácica seriada para o monitoramento de ICCE em cães.


Referência bibliográfica

Murphy, SD, Ward, JL, Viall, AK, et al. Utility of point-of-care lung ultrasound for monitoring cardiogenic pulmonary edema in dogs. J Vet Intern Med. 2021; 35: 68– 77. https://doi.org/10.1111/jvim.15990

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